Cloudflare para homelabs, parte 2: domínio, DNS e HTTPS

Você quer abrir a wiki do grupo em wiki.example.com, em vez de decorar um IP. Esse nome pode continuar igual se o servidor mudar de máquina, sair de casa ou passar a usar um túnel. O DNS permite mudar o destino sem mudar o endereço que as pessoas conhecem.
Na parte 1, vimos os serviços gratuitos da Cloudflare. Agora vamos separar as peças que participam de um endereço web. Entender o papel de cada uma já ajuda a escolher o que usar no homelab, num projeto pessoal ou numa equipe pequena.
Comprar o nome não hospeda o serviço
O registrar é a empresa em que você registra e renova o domínio, como example.com. O provedor de DNS mantém os registros que indicam onde estão os serviços desse domínio. A hospedagem é onde a aplicação e seus dados ficam.
Essas funções podem estar em empresas diferentes. Você pode manter o registro no Registro.br, usar o DNS da Cloudflare e hospedar a wiki num servidor em casa. Também pode apontar o site para uma plataforma de hospedagem e deixar apenas algumas aplicações no homelab.
No full setup, disponível no Free, a Cloudflare é o DNS autoritativo. Isso significa que seus servidores de nomes, os nameservers, passam a responder pelos registros do domínio. Trocar essa delegação não transfere a compra nem a renovação do domínio.
Quem usa o Cloudflare Registrar já tem registro e DNS integrados e precisa manter os nameservers da Cloudflare. Quem registra em outra empresa pode usar os nameservers da Cloudflare sem transferir o domínio. Existe uma modalidade que mantém outro DNS autoritativo, o partial setup, mas ela exige Business ou Enterprise e fica fora do caminho gratuito comum.

A tela mostra a Cloudflare como provedora do DNS. Os nomes dos servidores foram desfocados; cada domínio recebe os seus.
Uma mudança de DNS precisa preservar os registros existentes, inclusive os de e-mail. DNSSEC também faz parte da migração, porque valida a autenticidade das respostas. Essa troca merece um procedimento próprio; ter o domínio em outra empresa não obriga a fazê-la às pressas para experimentar um serviço.
O DNS informa o destino
Alguns registros aparecem com frequência:
| Registro | Para que serve |
|---|---|
| A | Associa um nome a um endereço IPv4. |
| AAAA | Associa um nome a um endereço IPv6. |
| CNAME | Associa um nome a outro nome, em vez de fixar um IP. |
| MX | Indica os servidores que recebem e-mail do domínio. |
| TXT | Publica informações como verificações de domínio e políticas de e-mail. |
Para a wiki, o importante é saber se o nome leva a um servidor alcançável ou a uma plataforma que recebe o acesso. O registro não instala a aplicação nem cria uma passagem pelo roteador.
As respostas DNS também ficam em cache. O TTL indica por quanto tempo uma resposta pode ser reutilizada antes de nova consulta. Por isso, mudar um registro não faz todos os dispositivos abandonarem o destino anterior no mesmo instante.
A nuvem laranja muda o caminho do acesso
Em registros compatíveis, a Cloudflare separa DNS only e Proxied. É a diferença entre a nuvem cinza e a laranja no painel.
Com DNS only, a Cloudflare responde à consulta DNS, e o acesso web vai ao destino indicado. O servidor de destino atende o visitante, incluindo seu HTTPS. A Cloudflare não passa a fazer cache desse tráfego só porque administra o domínio.
Com Proxied, a consulta retorna endereços da rede da Cloudflare. O navegador se conecta a ela, que atende a requisição ou a encaminha à origem. É nesse caminho que entram o certificado para o visitante, o cache da CDN e os recursos do proxy.
DNS, proxy e certificado Universal SSL estão disponíveis no Free para sites. Isso não transforma qualquer serviço de rede numa aplicação web compatível. Um servidor de e-mail ou uma porta de jogo não ganha suporte pelo simples ato de ativar a nuvem laranja.
HTTPS tem dois trechos
No acesso web com proxy, há uma conexão do navegador com a Cloudflare e outra dela com a origem. O Universal SSL cobre o primeiro trecho. Para uma origem web convencional, o modo Full (strict) usa HTTPS também no segundo e valida o certificado do servidor.
O certificado do visitante não instala um certificado no servidor de casa. Se o nome está em DNS only, o HTTPS continua dependendo da configuração no destino. O cadeado do navegador também não significa que a aplicação tenha login ou cópias de segurança.
Há uma limitação útil ao escolher nomes. No full setup, o Universal SSL cobre o domínio e os subdomínios de primeiro nível, como example.com e wiki.example.com. Um nome como wiki.casa.example.com precisa de outra cobertura de certificado. Para um homelab pequeno, nomes simples evitam uma exigência desnecessária.
O cache poupa a origem, mas não guarda a aplicação inteira
A CDN pode responder com uma cópia de um arquivo sem buscá-lo novamente no seu servidor. Isso ajuda num site com imagens, estilos e scripts que muitos visitantes recebem iguais.
O comportamento padrão não inclui cache de HTML e JSON. Uma wiki com páginas diferentes para cada usuário ou uma API que consulta dados novos ainda depende da origem. Regras de cache mudam esse comportamento, mas precisam respeitar o que pode ser compartilhado entre visitantes.
Ter CDN não torna um painel dinâmico independente da internet de casa. Hospedar os arquivos de um site estático na própria Cloudflare é outra solução, que veremos na parte sobre Workers.
DDNS quando o IP público muda
Se o provedor entrega um IP público variável, o DDNS mantém os registros atualizados. Um atualizador no roteador ou numa máquina detecta a mudança e informa o endereço atual à API de DNS. A documentação da Cloudflare inclui essa possibilidade e o uso de clientes como ddclient.
Isso dispensa contratar IP fixo para manter o mesmo nome. Ainda é preciso que as conexões consigam chegar ao serviço. Em IPv4 com NAT no roteador, normalmente há encaminhamento de portas. Se o IPv4 fica atrás do CGNAT do provedor, atualizar o registro não cria a entrada que falta. IPv6 público também depende da conectividade e das permissões de entrada.
DDNS pode acompanhar uma origem que passa pelo proxy ou uma entrada direta. Com proxy, o atualizador altera o IP da origem; o visitante continua chegando primeiro à Cloudflare. O túnel resolve outro problema: recebe requisições por conexões iniciadas de dentro da sua rede, sem depender dessa entrada pública.
Um nome estável, com o caminho certo por trás
Para um site ou uma wiki pequena, DNS, HTTPS e cache do Free já resolvem bastante. O domínio continua tendo custo de registro, e a aplicação precisa de hospedagem. Se o serviço é importante ao negócio, o Free para sites não inclui SLA de disponibilidade; suporte e continuidade entram na escolha do plano.
O nome pode ficar estável enquanto você decide onde rodar a aplicação e como receber acessos. Quando não há uma entrada pública disponível, ou quando você prefere não administrá-la, entra o Cloudflare Tunnel. Esse é o assunto da parte 3.
Referências consultadas em 1º de novembro de 2026. Limites e condições podem mudar.